SOL
SOLENIDADE DE RECEBIMENTO DO TÍTULO DE CIDADÃO BENEMÉRITO
Boa noite a todas e a todos que nos assistem, presencialmente ou pelas mídias sociais.
Quero saldar esta mesa, a presidenta Ruth, as vereadoras Analice Viana e Ceição, os vereadores, Bruno, Dedé Farias, João Maria, Lucivaldo, Marcones Dênis e Tota.
Quero agradecer a esta casa por esta homenagem que hora recebo, que muito me orgulha e me envaidece, agradecer em especial à vereadora e amiga Analice Viana pela autoria desse projeto que me torna Cidadão Benemérito de Taipu. Sou grato a todos os nobres vereadores. Honrarei este título até meu último suspiro.
Quero também registrar meu agradecimento ao vereador Dedé Farias, que quando presidente desta casa disponibilizou o acervo das atas da Câmara Municipal de Taipu, às minhas pesquisas.
Neste momento em que a emoção invade minha alma e insiste em embargar minhas palavras de gratidão, ainda assim, há serenidade para uma reflexão: há tantos que muito fizeram por nossa gente, por nossa terra, e não tiveram essa felicidade de receber tão grande honraria.
Não incorreria no erro de lista tais pessoas, porque se o fizesse fatalmente não lembraria todos, mas, quero citar algumas destas pessoas:
A Madre Natalina Rossetti e a Irmã Marilúcia Koaskoski, que dedicaram suas vidas à nossa gente, à nossa Taipu. Autorizadas pelo Papa Paulo VI, implementaram em Taipu a experiência das Freiras Vigárias, cuja administração da paroquia ficava sob suas reponsabilidades, entretanto, não se limitaram ao ensinamento religioso, mas, também, ao grande trabalho de inclusão social. Basta lembrar que o nosso povo foi inserido nos vários grupos por elas criados: de costureiras, de agricultores, de casais, de jovens, o Do-Re-Mi, o Raio de Luz, o Grupo de Escoteiros Dom Bosco. Lembrar das incessáveis mãos da Irmã Marilúcia, ainda vive na minha memória o seu frenético vai e vem, da Casa Paroquial à Maternidade, diuturnamente, trazendo ao mundo gerações inteiras de taipuenses, inclusive meus filhos Arnaldo e Gabriel.
Por vontade própria escolheram a terra que dedicaram suas vidas, para que seus corpos daqui não mais saíssem, e aqui estão, na Matriz de N. S. do Livramento.
À memória das Irmãos Natalina e Marilúcia dedico esta homenagem.
Dedico esta homenagem, também, à memória do casal Bernardo José da Costa Gadelha e a sua esposa, Dona Maria Inácia do Carmo Rangel. Dona Maria do Carmo era trineta de Manoel Rodrigues Coelho, dono da Sesmaria do Taipu Grande, que lhe foi concedida em novembro de 1709. Foi este casal que, de suas terras, adquiridas por compra aos senhores Domingos Henrique de Oliveira e a Manoel Bento, doou 125 braças quadradas, a partir da Lagoa da Buraca, para o Sul e para o poente, à construção de uma capela, com a condição de que fosse a Capela dedicada à Senhora do Livramento. Ao que tudo indica, a imagem de N. S. do Livramento, foi também doação de Dana Maria Inácia Rangel, imagem que teria herdado do seu pai, Joaquim Lino Rangel, que foi membro da Câmara do Senado de Natal. Admitindo-se a hipótese da doação da imagem por Dona Maria do Carmo, o ícone de N. S. do Livramento, que não tem apenas importância religiosa, mas, é também uma relíquia histórica que já teria ultrapassado os 200 anos. Pois bem, a este casal não lhes rendemos uma única homenagem.
Por fim, quero dedicar esta homenagem, também, à memória do Padre Fidelis de Paiva Ferreira, a quem é razoável afirmar que foi o arquiteto da criação da nossa Vila. O Padre Fidelis, dono da Sesmaria da Serra Pelada, foi responsável pela grande efervescência religiosa no nosso Taipu do Meio, conforme constata-se pelos registros nos livros da Freguesia de N. S. dos Prazeres de São Miguel de Extremoz, a quem éramos subordinados eclesiasticamente, à época. Registros que remontam do ano de 1838, ano anterior à passagem do Bispo Dom João da Purificação Marques Perdigão por Taipu do Meio.
Dom João Perdigão aqui dormiu às noites dos dias 8, 9 e 10 de novembro de 1839, partindo às 6 horas da manhã do dia 11, para Extremoz, parando para descansar em Capela.
No diário do próprio Dom João Perdigão, os dados registrados impressionam pela grandiosidade, o que comprovam a efervescência religiosa do nosso povo:
“...Tendo crismado de noite, porque não só se tem praticado decentemente estes atos, como porque não era mister anuir aos rogos de muitas pessoas, que por sua pobreza não podiam comparecer de dia, constando-me que muitas pessoas do sexo feminino de maior e menor idade recebiam este sacramento, comportando vestidos emprestados, tendo igualmente em vista a distância de 10 a 12 léguas, donde concorriam muitos crismandos.
Dia 9. Despachei 2 requerimentos do Padre Gama, recebidos no mesmo dia, e atendendo à longitude de muitas pessoas, que estavam chegando, e como era mister que todos os crimandos recebessem a imposição das mãos, fui obrigado a principiar a ação do santo crisma pelas 8 horas da noite, administrando este sacramento a mais de 1.000 pessoas, terminando depois da meia noite, antes da qual supliquei a comida de uns ovos fritos, por não poder fazer a prática sem alguma refeição em consequência de ter jantado com muita parcimônia. Esta prática finalizou pela uma hora, assistindo muito maior número que os crismandos. Nesta noite veio ter comigo o reverendo Fidelis.”
Foi exatamente na passagem do Bispo que houve o pedido à autorização para construção da Capela à N. S. do Livramento, mérito que é de ser atribuído ao Padre Fidelis, tanto por despertar o interesse do Bispo à nossa Terra, quanto pelo pedido e a concessão para a construção da Capela.
Portanto, ao que tudo indica, nossa Taipu foi “gestada” na Serra Pelada, arquitetada pelo Padre Fidelis. Infelizmente, poucos dos nossos compatriotas já ouviram falar no dito Padre, e quando alguma coisa sabe sobre o Reverendo Fideles, é que foi o dono da Sesmaria da Serra Pelado.
Nunca é tarde para se fazer um reconhecimento:
Poderíamos chamar o caminho que liga a BR 406 ao Arisco dos Barbosa de Estrada Bernardo José e Maria Inácia Rangel, e o caminho do Arisco dos Barbosa à Serra Pelada, de Estrada Padre Fidelis de Paiva Ferreira. O nome de Estrada a um logradouro é, por sinal, uma belíssima maneira que o pernambucano encontrou para homenagear as memoráveis batalhas em que os brasileiros, com a extraordinária participação do nosso Dom Antônio Felipe Camarão e sua esposa Clara Camarão, expulsaram os holandeses do Brasil, à revelia do Rei de Portugal. Lá, na região metropolitana do Recife, em uma de suas principais vias, ao lodo do Morro dos Guararapes, está a Estrada da Batalha, com a orgulhosa frase: A Pátria Nasceu Aqui.
É importante conhecermos nosso passado, é fundamental para entendermos o nosso presente, e assim ser possível prepararmos um futuro sustentado em valores que nortearam nossos ancestrais e que nos conduza a uma sociedade fraterna, justa, próspera e com grande auto estima, sobretudo, à nossa juventude.
Nos últimos anos tenho dedicado boa parte do meu tempo em pesquisar os retalhos de nossa história, principalmente na parte genealógica das famílias que aqui chegaram ainda no século XIX. Nesse esforço em encontrar os vestígios da nossa história, não posso deixar de lembrar a contribuição dos que dedicaram e dedicam esforços para encontrar registros dos nossos cantos, dos nossos casos, das nossas coisas, dos nossos ancestrais:
Luiz Viana, escreveu “Temas de Reflexão”, onde fez uma definição de Taipu, de forma poética: Taipu é uma terra pequenina onde, dos desvaneios de nossos avós, amores dos nossos pais e sonhos enluarados da infância, fazem dela o relicário da nossa meninice, tão longe e tão perto do coração. Luiz Viana também fez referência à Buraca
O professor Manoel Nazareno Nogueira, que foi vereador desta casa, escreveu em 1967 o Livro “Taipu – Rio Grande do Norte”;
O engenheiro agrônomo Sebastião Silva (Sebastião Tixa), escreveu “Taipu da Minha Infância – Memórias”;
A professora Francisca Avelino dos Santos, em seu diário, que infelizmente teve boa parte extraviado, registrou o retrato escrito de Taipu, social, político e econômico, das décadas de 1950 a 1970.
O poeta Antônio Saldanha filho, nosso querido Bibi Saldanha, escreveu “Taipu, Minha Cidade, Minha Saudade” – 1985 e “Fala Taipu” – 2006.
O professor José Humberto da Silva, que infelizmente partiu no auge de suas produções documentárias sobre Taipu, nos deixou: A Vila de Taipu e as Famílias Ferreira da Cruz e Boa da Câmara - 2011, e O Centenário da Fundação da Paróquia de Taipu – Ação e Fé, 2013;
O professor João Batista dos Santos, ou João da Estação, como o conhecemos, escreveu o livro “Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte em Taipu-RN – Transformações Espaciais e Memória”, 2016. João faz um trabalho de verdadeiro garimpo nos retalhos das memórias da nossa história. Seu blog Crônicas Taipuenses é, sem dúvidas, uma das maiores fontes de informação da história de Taipu e região. Seu trabalho lhe rendeu recentemente o título de cidadão camarense, pela Câmara Municipal de João Câmara.
O professor Gustavo Praxedes, hoje secretário de educação do nosso município, pesquisador desde criança, apaixonado pela nossa terra e por nossa história, genealogista, tem várias publicações, a exemplo de “Conhecendo o Nosso Município (História de Taipu) – 2002”. Um hábito de Gustavo é adquirir as publicações que faça qualquer referência a Taipu, ainda que seja uma citação com uma única palavra.
E eu entendo este sentimento do professor Gustavo. Lembro-me de quando a matéria do Jornal O Globo, edição de 7 de fevereiro de 2010, na seção Boa Chance, capa e página 4, sob o título - Inovação ganha força em equipes formadas por profissionais de diferentes nacionalidades, citou Taipu:
... Isso abre nossa cabeça para vários pontos de vista e metodologias de trabalho.
Na Chemtech, empresa de soluções de engenharia e tecnologia, profissionais de diferentes regiões convivem lado a lado. Boa parte deles no projeto de construção da Refinaria do Nordeste. Na equipe responsável por arranjos e tubulações, de 120 funcionários, encontramos gaúchos, catarinenses, paranaenses, paulistas, cariocas, pernambucanos, mineiros e paraibanos, além de colaboradores de Estados Unidos, Bolívia, Chile, Portugal, Espanha e até Egito. - Além da comunicação, um ponto difícil do trabalho é apresentar aos estrangeiros normas e leis nacionais. Mas a vantagem é que a linguagem da engenharia é universal:
softwares, diagramas, fluxogramas e memórias de cálculo são iguais para todo mundo — diz o engenheiro mecânico Arnaldo de Andrade, 47 anos, nascido em Taipu, cidadezinha a 50 km de Natal.
Senti uma felicidade enorme.
Àqueles que dicaram e que dedicam parte do seu tempo à história de Taipu, a minha reverência.
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